16 mar

PRINCÍPIOS SÃO INEGOCIÁVEIS

Prof. Amir Kanitz

Cientista Social

Pesquisador Pleno

 

No momento atual, em que a promessa de dinheiro do Estado (que é, na verdade, dinheiro nosso, distribuído junto com discursos) surge na forma de indenizações que seduzem os produtores que sofrem com invasões de terras, se faz necessária uma reflexão: Quem, afinal, somos “nós”?

Estudiosos da vida no campo, não sem razão, consideram os produtores rurais como pessoas práticas que, através da produção, resguardam a vida, a propriedade e a liberdade:

  • Vida: pois produzem o sustento para todos;
  • Propriedade: que é o fundamento básico da produção;
  • Liberdade: pois, a autonomia do proprietário o permite discordar da opinião reinante, e, quando discordar a propriedade sempre será a garantia do dissidente. Por isso, governos totalitários se esforçam tanto em restringir a propriedade.

Todavia, apesar do proprietário rural ser um elemento fundamental para a defesa desses pontos, parece existir uma tendência de certos grupos fugirem desta grande responsabilidade.

Os que não querem mais lutar ou cansaram disso, argumentando ser “mais inteligente” aceitar indenizações, se esquecem ou disfarçam alguns fatos:

  1. Não é nada “inteligente” optar por indenizações. Uma vez que as terras forem reconhecidas como “indígenas”, o “invasor” será simplesmente removido. O produtor é, assim, visto como bandido. Não faz sentido, então, pagar por algo que o “bandido roubou”. É importante esclarecer que, por este motivo, as leis não permitem essas indenizações. Porém, o discurso político permite qualquer coisa.
  2. Há lideranças dos agricultores que admitem que seus irmãos sejam criminosos, e por isso devem deixar as terras? Como pode isso? Lutar por indenização não é lutar, mas é, na verdade, aceitar suborno. Quem não invadiu não deve ser retirado de sua terra, mesmo que alguém pague por isso.
  3. O governo não é confiável. Não há respaldo legal para indenizações das terras. E, mais ainda, quem quer participar do esquema no qual o Estado corrupto garante a permanência dos invasores, comprando o direito dos proprietários? Quem vai querer se associar a isso?
  4. Depois de “indenizados”, tendo assumido que não eram donos legítimos, onde encontrarão a desejada paz? Depois de dar ao Estado o direito de comprar consciências para assentar aproveitadores, por que acreditam que o Estado vai parar de fazer isso Brasil afora?

Além disso, podemos acrescentar que fugir da luta é mais uma forma de enfraquecer a classe de produtores – já tão difícil de unir – pois, contraria o parecer da confederação e torna individuais as disputas e processos.

Evidentemente que o desespero se instalou, sobretudo nas regiões mais afetadas pelas invasões. Mas, além de não ser o mais inteligente render-se perante promessas de dinheiro do Estado (destacamos que são promessas impossíveis de se cumprir), como fica os princípios do agricultor, essa figura tão necessária em tempos de degradação dos bons ideais?

Devemos insistir na pergunta inicial: quem, afinal, somos “nós”?

Desunidos, nem sequer um “nós” existirá. Temos, no entanto, mais do que uma simples vontade de “garantir algum dinheiro”, somos mais que isso, pois não aceitamos ser tratados como invasores ou aproveitadores.

Podemos dizer quem somos, ao menos para esta questão específica: somos o Brasil que dá certo, portanto não idiotas fáceis de serem enganados por um governo compromissado com aproveitadores. Somos inteligentes o suficiente para não seguirmos a cartilha de um Estado que criou o problema para agora querer nos vender a solução. Somos os homens e as mulheres com princípios, que sabem lutar e o farão para defenderem seus modos de vida, sua verdadeira função social e sua missão de produtores.

Sabemos quem somos. Ninguém deve colocar preço na vida que construímos e nem em nossas consciências.

Muitos movimentos sociais nos acusam de sermos “capitalistas do campo”, burgueses interessados somente no lucro, sem preocupação com a vida e as raízes da comunidade. Essa carapuça, em nós, não servirá. Nós não somos assim. Não estamos à venda.